Como a comunicação dentro da empresa pode destruir (ou salvar) uma venda

1. A história real (adaptada) de uma promoção que deu errado

Uma rede de lojas de eletrônicos decidiu lançar uma promoção relâmpago. A diretoria enviou um e-mail para os gerentes na sexta-feira, às 18h, com o assunto “Promoção sábado”. O e-mail tinha apenas: “Desconto de 20% em todos os acessórios. Divulguem.” Os gerentes não tiveram tempo de treinar os vendedores. No sábado, os clientes chegaram e ouviram informações diferentes: uns vendedores disseram que o desconto era apenas para membros do clube, outros que valia só no cartão de crédito da loja, outros que era para qualquer forma de pagamento. Clientes irritados foram embora. Nas redes sociais, a loja foi chamada de “desorganizada”, “mentirosa” e “amadora”.

O problema não foi o preço. O problema foi a comunicação organizacional – ou a falta dela. Segundo Kunsch (2003), a comunicação organizacional é uma ferramenta estratégica que, quando bem gerida, alinha interesses e potencializa resultados.

2. O que é comunicação organizacional?

É o conjunto de fluxos, mensagens, canais e ferramentas que uma empresa usa para se comunicar internamente (entre seus funcionários, departamentos e níveis hierárquicos) e externamente (com clientes, fornecedores, imprensa, sociedade, investidores).

Dividimos em três grandes áreas (Kunsch, 2003):

  • Comunicação interna (endocomunicação): reuniões, e-mails, murais, grupos de WhatsApp internos, intranet, boletins, circulares.

  • Comunicação mercadológica: propaganda, promoção de vendas, marketing digital, relações públicas voltadas para o mercado.

  • Comunicação institucional: relações com a imprensa, responsabilidade social, branding, gestão de crise.

Para um vendedor, as mais importantes no dia a dia são a comunicação interna (porque afeta seu trabalho diário, seu alinhamento com a equipe e sua motivação) e a comunicação externa (porque é o que ele entrega ao cliente na ponta).

3. Os três fluxos da comunicação interna

Segundo Torquato (2004), as organizações possuem três fluxos comunicacionais básicos:

FluxoDireçãoExemplo prático
DescendenteDa direção (alta liderança) para os funcionáriosDiretor envia uma circular sobre nova meta de vendas; gerente repassa procedimentos
AscendenteDos funcionários para a direção (subordinados para superiores)Vendedor sugere melhoria no processo de devolução via caixa de sugestões ou reunião
HorizontalEntre pessoas do mesmo nível hierárquicoDois vendedores trocam dicas sobre como abordar clientes difíceis

Uma empresa saudável tem os três fluxos ativos e equilibrados. Empresas doentes geralmente têm fluxo descendente forte (só ordens, pouca explicação) e ascendente bloqueado (ninguém escuta o vendedor, sugestões são ignoradas).

4. Vantagens de uma boa comunicação organizacional

  • Informação no lugar certo, na hora certa: evita retrabalho, erros e retrabalho.

  • Engajamento dos funcionários: colaboradores que sabem o que a empresa espera deles e são ouvidos se sentem mais seguros, motivados e produtivos.

  • Velocidade de resposta: se um cliente reclama de um produto, o vendedor comunica ao gerente, que comunica ao comprador – e o problema é resolvido antes de virar uma crise de imagem.

  • Clareza de objetivos: todos remam na mesma direção, com os mesmos KPIs e metas claras.

  • Redução de conflitos internos: quando a comunicação é transparente, há menos espaço para fofocas, boatos e mal-entendidos.

5. Desvantagens e problemas comuns (e como evitá-los)

ProblemaComo se manifestaSolução prática
Silos de informaçãoCada setor guarda dados para si, e ninguém compartilhaReuniões semanais curtas de alinhamento entre áreas (15 min)
Rumores e boatosFalta de comunicação oficial → inventam-se versõesCanal formal (intranet, mural, grupo oficial) atualizado diariamente
Sobrecarga de informação50 e-mails por dia, ninguém lê tudoResumos objetivos com tópicos claros no assunto do e-mail; usar ferramentas de comunicação interna
Falta de escuta ascendenteVendedores sabem de problemas reais, mas gestores ignoramCaixa de sugestões anônima, rodízio de feedback, reuniões one-on-one
Comunicação descendente sem contextoOrdens são dadas sem explicação do “porquê”Ao comunicar uma decisão, explicar o raciocínio por trás dela

6. Exemplo prático: o poder do fluxo ascendente

Cenário: Em uma loja de eletrônicos, vários clientes reclamam que a política de troca é confusa – o prazo é de 30 dias, mas há exceções que não estão claras. Os vendedores anotam todas as reclamações e, na reunião semanal, levam ao gerente, com exemplos concretos. O gerente repassa à diretoria com dados (número de reclamações, produtos mais afetados). A diretoria revisa a política, simplifica as regras e lança um comunicado claro para todas as lojas, além de um treinamento rápido. Em uma semana, as reclamações caem 70%.

Se o fluxo ascendente falhasse: os vendedores guardariam as reclamações para si (achando que “não adianta falar”), ou o gerente as ignoraria (achando que “é só cliente chato”). O problema continuaria, os clientes trocariam de loja, e a diretoria nem saberia que havia um problema.

7. Comunicação externa: o cliente em primeiro lugar

A comunicação externa é a que o cliente vê, ouve e sente. Inclui:

  • SAC (Serviço de Atendimento ao Consumidor) : respostas rápidas (idealmente em até 24h), canais múltiplos (telefone, WhatsApp, e-mail, chat).

  • Redes sociais: responder a comentários negativos em até 2 horas (quanto mais rápido, melhor); interagir com elogios também.

  • Sinalização na loja: preços legíveis, informações claras sobre garantia, troca, formas de pagamento.

  • Site e aplicativo: linguagem simples, fácil navegação, informações de contato visíveis.

  • Comunicados oficiais (release, nota à imprensa) : em caso de crise ou lançamento importante.

Erro fatal: a comunicação externa ser contraditória com a interna. Exemplo: a empresa divulga “trocamos em até 30 dias” no Instagram, mas os vendedores foram orientados a “evitar trocas a todo custo”. O cliente se sente enganado e a confiança é quebrada.

8. Aplicações práticas para o vendedor

  • Seja um elo ativo na comunicação ascendente: quando ouvir a mesma reclamação de três clientes diferentes, comunique ao seu gestor – não espere que alguém pergunte.

  • Peça confirmação (feedback): se seu gerente lhe passar uma instrução, repita com suas palavras: “Então, o senhor quer que eu ofereça o desconto apenas para clientes com cartão de fidelidade, correto?”.

  • Evite fofoca e boatos: se um colega recebeu uma informação diferente da sua, vá direto à fonte (gerente ou RH) em vez de propagar versões.

  • Use canais adequados: um problema urgente (ex.: cliente na loja irritado) merece uma ligação ou comunicação imediata, não um e-mail que será lido horas depois.

  • Mantenha-se informado: leia os comunicados internos, participe das reuniões, consulte a intranet. Você só pode passar informações corretas ao cliente se estiver bem informado.

9. Exercício de fixação (responda nos comentários do blog)

Questão 1: Pense na empresa onde você trabalha, na escola ou em alguma organização que você conhece. Dê um exemplo de comunicação descendente que funcionou bem (a informação chegou clara a todos) e um exemplo de falha na comunicação ascendente (quando alguém de baixo tentou falar e não foi ouvido). Descreva cada situação em 3 a 4 linhas.

Questão 2: Você é gerente de uma loja. Um vendedor lhe diz que vários clientes estão reclamando de um produto com defeito recorrente (o mesmo lote de um carregador que superaquece). Como você usa o fluxo ascendente para levar essa informação à diretoria? O que você diria, para quem e por qual canal (e-mail, reunião, telefone)? Escreva uma resposta prática.

Questão 3: Imagine que sua empresa cometeu um erro grave que afetou muitos clientes (ex.: todos os pedidos da semana atrasaram por uma falha no sistema). Qual seria a pior atitude de comunicação externa (o que não fazer)? E qual seria a melhor atitude (o que fazer para minimizar o dano)? Escreva uma frase para cada.

Questão 4: Descreva uma situação em que uma informação contraditória entre o que a loja divulgou (ex.: rede social, outdoor) e o que o vendedor falou fez você, como cliente, desistir da compra ou ficar insatisfeito. O que poderia ter sido feito diferente?


📚 Referências

KUNSCH, M. M. K. Comunicação organizacional: conceitos e dimensões dos estudos e das práticas. São Paulo: Summus, 2003.

TORQUATO, F. G. Tratado de comunicação organizacional e política. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2004. 303 p.

Renato S. Araújo
Renato S. Araújo

Renato Soares é bacharel em Administração pela Faculdade Internacional da Paraíba (FPB) e em Rádio, TV e Internet pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Escreve sobre tecnologia, inovação e cultura digital, temas que já explorou em projetos multimídia e produções acadêmicas. Além de administrador e comunicador, é um entusiasta da fotografia, viciado em música eletrônica e um cinéfilo dividido entre Marvel e DC. Nas horas vagas, está sempre mergulhado nos últimos avanços tecnológicos, buscando entender como eles podem transformar nosso cotidiano.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *